Resposta curta

Na maioria dos casos, os dois. O fluxo de caixa descontado mede o valor pelo caixa que o próprio negócio vai gerar e captura o que é específico da empresa. Os múltiplos mostram como o mercado precifica empresas parecidas. Usados juntos, um testa o outro, e a diferença entre eles costuma ser a informação mais útil da avaliação.

Como funciona o fluxo de caixa descontado

O fluxo de caixa descontado projeta o caixa livre que o negócio vai gerar nos próximos anos e traz esses valores a valor presente por uma taxa que reflete o risco, normalmente o custo médio ponderado de capital. Depois do horizonte explícito, um valor terminal representa o negócio dali em diante.

A força do método é capturar o que é específico da empresa: crescimento, margens, investimentos, capital de giro e risco. A fraqueza é a sensibilidade às premissas. Pequenas mudanças na taxa de desconto ou no crescimento de longo prazo movem bastante o valor, e o valor terminal costuma responder por uma parte grande do total.

Como funcionam os múltiplos

Os múltiplos comparam a empresa com outras parecidas, a partir de indicadores como valor da firma sobre EBITDA ou sobre receita. As referências podem vir de empresas com ações negociadas em bolsa ou de transações de compra e venda.

A força é a ligação com o mercado: o múltiplo mostra quanto investidores estão pagando hoje por negócios semelhantes. A fraqueza é a comparabilidade. Porte, crescimento, margem, liquidez e momento de mercado mudam muito de uma empresa para outra, e no middle market brasileiro há poucas referências realmente comparáveis.

Quando cada método pesa mais

  • Fluxo de caixa descontado pesa mais em empresas com geração de caixa previsível, em projetos com cronograma definido e quando o plano de negócio muda o perfil da empresa.
  • Múltiplos pesam mais em setores maduros, com muitas empresas e transações comparáveis, e como referência rápida em negociações.
  • Patrimônio ajustado faz mais sentido em holdings, empresas de ativos reais e negócios cujo valor está mais nos ativos do que na operação.

Quando os dois não batem

É comum o fluxo de caixa descontado e os múltiplos apontarem valores diferentes. A diferença costuma ter explicação: a empresa cresce mais ou menos que as comparáveis, tem margens diferentes, é menor e menos líquida, ou o mercado está pagando acima ou abaixo da média histórica naquele momento.

Explicar essa diferença é muitas vezes a parte mais útil do trabalho. Em uma negociação, ela mostra exatamente quais premissas separam o comprador do vendedor.

Três cuidados em qualquer valuation

  1. Normalize o resultado. Retire efeitos que não se repetem, como ganhos pontuais, despesas extraordinárias ou remuneração de sócios fora do padrão de mercado, antes de projetar ou aplicar múltiplos.
  2. Faça a ponte do valor da firma ao valor das ações. O valor da firma inclui a dívida. Para chegar ao valor dos sócios, desconte a dívida líquida e os itens equivalentes a dívida, como passivos trabalhistas ou fiscais relevantes.
  3. Fixe a data-base. O valor é medido em uma data. Resultados, dívida e caixa precisam estar todos referidos a ela.

Valuation para decisão e laudos formais

Um valuation para apoiar decisão e negociação é diferente de um laudo exigido por lei, por norma contábil ou por regulador, que segue requisitos próprios de forma, metodologia e responsável técnico. Antes de começar, vale confirmar qual dos dois o caso exige.

Valuation

Avaliação por fluxo de caixa descontado e múltiplos, com premissas explícitas e faixa de valor.

Como a Finder atua
Fernando B. Deprá

Managing Director da Finder. Carreira entre a análise de crédito em banco, a tesouraria e o FP&A de grandes empresas e a cadeira de CFO. FGV EAESP, com programas executivos em Harvard Business School, INSEAD e Stanford via Endeavor.